terça-feira, 9 de abril de 2013

Um havaiano em Porto Alegre

Há algum tempo atrás fiquei surpresa quando notei que uma velha casa de esquina, perto de onde moro, havia se transformado num restaurante havaiano. Por certo isso não acontecera da noite para o dia mas, por algum motivo, me "escapara". Surgia pronto, instigando minha curiosidade. O que fazia um restaurante havaiano em Porto Alegre? Em que consistiria, afinal, uma cozinha havaiana?

Imaginei algo em torno de frutas (abacaxi e côco, certamente), provavelmente peixe e talvez porco (sei lá por que pensei nisso). Minha ignorância era preenchida pelas lembranças vagas e distantes dos filmes hollywoodianos (como esquecer o Feitiço Havaiano de Elvis Presley?). Dada a precariedade de meus conhecimentos e disposta a resolver o enigma, fui conhecer o Lanai -- assim se chama o lugar. 

O ambiente é pequeno e despretensioso, cercado de objetos e quadros que lembram o Havaí. Sobre as mesas não há toalhas mas jogos americanos de palhinha, buscando, suponho, sugerir a informalidade das ilhas. A proprietária, que também é a chef, me recebeu com gentileza e contou da proposta um tanto quanto "fusion" do cardapio. Até aí nada de esotérico, uma vez que o arquipélago experimenta efetivamente uma mistura de culturas. Desde que foi anexado aos Estados Unidos, nos  primeiros anos do século XX, e principalmente depois de 1959, quando se tornou um estado norte-americano, o Havai recebe imigrantes de várias partes do mundo. Quase como consequência, sua culinária acabou se tornando uma combinação de diferentes tradições e culturas, incluindo, obviamente, muito peixe, camarão, vegetais e frutas locais.

O cardápio do Lanai tem esse tom. Não é muito extenso (o que geralmente me parece um bom sinal), mas tem alternativas suficientes para atender uma clientela diversificada. Repeti a visita várias vezes, desde que o "descobri" em 2011. Geralmente peço camarões.Gosto de perceber o ponto de cozimento que combina maciez e crocância. Gosto também da ardência dos molhos apimentados e do gengibre presentes em muitos pratos. Mais recentemente experimentei um peixe acompanhado de legumes e um mil folhas que combinava queijo, alho poró e algo mais... Infelizmente não tomei nota na hora e, assim, meu registro ficou só na foto e na memória de um sabor muito muito especial!


sexta-feira, 15 de março de 2013

Domingo na Lagoa

Domingo de sol escaldante no Rio. Por um motivo qualquer acordei tarde e a praia já não me parecia atraente. Estaria super cheia, com certeza. A disputa por uma estreita faixa de areia e o amontoamento debaixo do guarda-sol não pareciam uma boa ideia. A proposta é, então, rumar para a Lagoa. Cercada por morros, com o Cristo Redentor lá no alto, essa é uma bela pedida. Além do mais agora funciona ali um "complexo" com cinemas, bares, uma casa de shows e alguns restaurantes. Isso significava que se poderia derramar o olhar por um cenário de luxo e, ao mesmo tempo, saborear um bom almoço (com ar condicionado!).

O espaço (as usual) adota um nome estrangeiro: Lagoon. O setor gastronômico, mais recente, é o Lagoon Gourmet. À entrada, uma recepcionista pergunta a qual restaurante pretendemos ir. Ali funcionam o Giuseppe Gril Mar, o Pax Delicia, o Quadrifoglio Caffé, o Gula Gula e o San Remo. Escolhemos o Pax Delicia. Somos encaminhados para lá, em seguida. Na passagem temos chance de espiar uma "poderosa" adega (com cerca de 1800 rótulos) que serve a todos os restaurantes. Entre os restaurantes há uma área de estar e circulação que acaba por se constituir num grande lounge, com sofás, mesinhas e um bar para quem tem de esperar. Do lado de fora, há uma varanda igualmente espaçosa e atraente, com mesas, cadeiras e ombrelones para quem deseja comer ao ar livre. Como o calor é intenso deixamos a ideia para outro momento.



O movimento é grande e esperamos um tanto para que cheguem à nossa mesa os tres pedidos: combinado de sushi, sashimi e roll; ceasar salad com tempura de salmão; carpaccio de carne com mozzarella de bufála, tomate seco, alcaparras e manjericão. 



Enquanto aguardamos, aproveito para circular um pouquinho e sou atraída por uma bancada com aparência de feira na qual estão dispostos peixes sobre gelo. Conforme são solicitados pelo restaurante (o Giuseppe Gril Mar) os peixes são pesados e passados através da janela. Acho curioso e inusitado. Um monte de caixas com batatas, cenouras e cebolas compõem esse recanto. Tudo dá um tom de informalidade e graça ao lugar.


Um programa interessante e agradável. Um espaço cheio de beleza e sabor.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Reencontro em Ipanema

Escolhemos o restaurante pela internet. Não tinhamos referências mais diretas ou concretas, mas resolvemos arriscar. Era perto, dava para ir a pé. Passamos em frente, confabulamos um pouquinho e decidimos encarar. Reconheci o logotipo: Bazaar. Lembrava de ter visto na Livraria da Travessa, lá em cima, no café, e até já tinha comprado uns molhos da marca.

O lugar pareceu agradável e elegante. Queríamos comer bem e conversar à vontade. Antes era preciso dar uma olhada no cardápio para conferir se havia alguma alternativa vegetariana. Apenas uma oferta: moqueca de palmito pupunha e banana-da-terra com arroz vermelho. Parecia uma boa pedida, mas eram dois os vegetarianos do grupo... Para não repetir a dose, já que estávamos dispostos a experimentar vários itens do cardápio, a alternativa foi escolher o risoto de queijo grana padano. O chef se dispunha a substituir o presunto cru crocante que entrava no risoto. "Ficou gostoso", disse o homenageado da noite, enquanto registrava (e reclamava) meu desinteresse em fotografar o seu prato. Minhas desculpas (esfarrapadas, devo reconhecer) não adiantaram. Desconfio que vou ouvir esse reclamo por muito tempo! 
(Aqui o registro da moqueca)

Sem a restrição vegetariana a lista era grande. Por pura curiosidade diante da descrição, escolhi "escalopes de cavaquinha sobre purê de aipim, alho poró crocante e molho adocidado de amêndoas e avelãs". Talvez mais prudente, meu amigo preferiu o "salmão ao molho de saquê e teriyaki com arroz oriental de gergelim, cogumelos e passas". 



Como a noite era de comemoração e reencontro,  nos permitimos completar o jantar com sobremesa. No cardápio constava um "Etílico Gourmand (três mini sobremesas e uma taça de vinho do porto)". Pedimos três. Um exagero! Mas arrematou bem nosso encontro. 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Praia sem fim

Num dia de sol, pegamos o carro e rumamos para a Barra, Recreio, Guaratiba. É a praia sem fim do Rio de Janeiro. Os olhos se fartam de tanto céu e mar. De vez em quando uma parada para sentir o vento, espiar a garotada surfando, as famílias com suas crianças e merendas embaixo de guarda-sóis. Nos rendemos ao impulso de fotografar, é claro. Afinal estamos de passagem, não é todo o dia que temos à mão tanta beleza.
















Como é sábado há gente por todo lado. Seguimos os rituais do lugar e buscamos um restaurante à beira mar para almoçar. "Na Toca da Traíra", diz o motorista. "Não há quem não goste do pintado na brasa que eles preparam por lá".

Dito e feito. Esse se torna nosso destino. Conseguimos uma mesa de varanda voltada para a praia e nos instalamos. Antes de mais nada, peço uma caipirinha, pois afinal não vou ter de dirigir na volta. Ela chega rápido e gelada. O pintado na brasa, que é a pedida de muitas mesas, vem no espeto, acompanhado de camarões com molho de catupiry (catupiry de verdade, não uma misturinha tapeada), purê de batatas e arroz. Um exagero? Claro que sim. Mas quem está pensando em leveza e elegância numa hora destas?


domingo, 17 de fevereiro de 2013

Na nossa zona sul

Como todo mundo (ou quase todo mundo) exalto as belezas da zona sul do Rio. Já fiz aqui várias referências a comidas e bebidas que tive a chance de saborear nesse cenário carioca por excelência. Mas vivo em Porto Alegre e nossa zona sul também tem lá suas belezas, afinal dali se pode ver o Guaíba esparramado e alguns morros no horizonte. Gosto de lá, onde passei tantos verões na minha infância e juventude. Infelizmente, as chances de comer bem nessas bandas são poucas e raras (quase nulas, para dizer a verdade, já que o que havia de melhor, sumiu -- cf. o post de setembro).

Antes de chegar à beira d'água, contudo, antes de alcançar Ipanema e seguir para o Guarujá, se passa por Vila Assunção, Tristeza, Vila Conceição, Pedra Redonda e... há alguma esperança. Foi justamente na Vila Assunção que encontrei um lugarzinho gracioso, o Iaiá Bistrô e ali experimentei um almoço muito agradável.

Já tinha ouvido falar do Iaiá mas, não sei bem porque, demorei a conhecê-lo. Fui até lá há algumas semanas atrás, num desses sábados ensolarados de janeiro. O cardápio é amplo, com uma certa 'pegada' mais tropical. Há moquecas, vatapá, bobó de camarão, frutos do mar, pato ao tucupi;  também aparecem ali os grelhados, para não abandonar os gaúchos que não dispensam carnes, e, em contrapartida, há o cuidado de oferecer alguns pratos vegetarianos, já que cresce o número daqueles que assumem essa preferência. Como entrada, escolhemos um gratinado de siri que me pareceu menos saboroso do que as tradicionais casquinhas de siri gratinado (a proposta é mesmo um pouquinho diferente). Como prato principal, escolhi tortei com camarões -- absolutamente delicioso!


Minha irmã preferiu o filé de congrio com crosta de castanha do Pará. O peixe veio acompanhado de um purê de mandioquinha e molho de tamarindo e foi também muito apreciado.


O ambiente rústico, a casa avarandada com largas janelas, as mesas cobertas com chita colorida e o atendimento gentil me fizeram garantir à proprietária que voltaria lá muitas outras vezes.


sábado, 9 de fevereiro de 2013

Sem folia

É sábado de carnaval. Muita gente saiu da cidade. Porto Alegre não é propriamente "da folia", embora também se possa descobrir por aqui desfiles e bailes (há até mesmo um sambódromo). Na contramão do agito e dos blocos exibidos sem cessar na televisão, se ouve o silêncio, as ruas estão vazias e a gente anda sem pressa, antegozando a folga que vai até quarta-feira. Filas, só nas bilheterias dos cinemas, aparentemente a maior diversão urbana. 

Neste cenário apetece preparar um almoço tranquilo, estendido no tempo e com direito a sesta. Um almoço descomplicado e que, de preferência, não demande muita arrumação de louça e cozinha. Pensei em peixe, pois ando inclinada às coisas do mar e busco também dar alguma "leveza" à refeição. No freezer encontro um pacote de merluza congelada. Seria melhor se fosse um peixe fresco mas, vá lá, assim não tenho de ir ao mercado. 

Uma maneira simples de prepará-lo pode ser "en papillote", quer dizer, empacotado em papel alumínio, levado ao forno, para cozinhar em seu próprio vapor. Adoto essa fórmula que, acredito, não tem erro.

Depois de descongelar os filés, coloco cada um deles num quadrado do papel alumínio e tempero com sal, pimenta, finas fatias de cebola roxa, pedacinhos de tomate cereja e coentro (hoje felizmente consegui coentro), um fio de azeite e fecho bem o pacotinho. Agora é só colocar no forno por cerca de 15 ou 20 minutos. 













Para acompanhar preparo batatas cozidas salteadas no azeite junto com cogumelos paris. 


Na hora de servir, em cada prato um pacotinho e acompanhamentos. Depois... bem, cada um "se vira" ou, como se diz em francês, cada um deve "se debrouiller" (palavra que me lembra "desembrulhar").  Aberto o pacote, o aroma é delicioso. 


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

No Rio

Não sou nada original quando digo que "minha alma canta [quando] vejo o Rio de Janeiro". De fato, adoro estar nesta cidade que acende meu lado "solar". Gosto de andar no calçadão, ver o mar e a montanha e a gente do Rio. O cenário encantador me chega embalado em bossa-nova e juventude, provavelmente porque experimentei tudo isso por lá.  E já faz tempo...

Mas aqui devo falar de comida e de bebida ou, pelo menos, dos encontros compartilhados a seu pretexto. Nessa última e curtíssima temporada, tive vários, se não memoráveis, saborosos e divertidos.

Começo por um jantar no Zazá Bistrô Tropical, em Ipanema. Um restaurantezinho descolado, com mesas na varanda e na sala iluminadas por velas. Atendimento correto, o que nem sempre acontece no Rio, devo reconhecer.

Para esperar nossa convidada, pedimos o couvert e ele merece registro. Acompanhando uma cestinha com finíssimas torradas e chips de batata baroa e batata doce, apareceram uma mousse de wasabi (muito, muito gostosa) e um molhinho que combinava tomate, mel e gergelim. Uma entradinha diferente que, junto com o vinho branco, fez a espera parecer agradável.

Experimentamos dois pratos do cardápio, ambos do mar: camarões flambados com risoto de limão e jardineira de legumes e namorado grelhado com palmito pupunha sobre uma base de banana da terra caramelizada mais aspargos sauté com  azeite de pimenta dedo de moça.















Talvez num exagero,  mas a noite era de reencontro familiar, resolvemos dividir uma sobremesa e a escolha foi o "Devil's Cake", um pequeno souflé de chocolate meio amargo com crosta crocante, acompanhado de sorbet de limão siciliano. (Gostei mais do sorbet pelo toque cítrico e refrescante do que do cake propriamente dito). Em resumo: comida gostosa, muita conversa e risos e a noite foi perfeita.