Domingo, feriado, visita de quem mora fora... o motivo pouco importa. Temos um "baita" churrasqueiro na família. Qualquer pretexto é pretexto para reunir o grupo. E churrasco, segundo a tradição do Rio Grande, deve ser preparado pelos homens. Posso ter toda a conviccção do mundo contra divisões/restrições de sexo/gênero mas, nesse caso específico, por puro comodismo (e reconhecimento das indiscutíveis qualidades do cozinheiro em questão) me rendo. Nada faço senão ajudar no arranjo da mesa, às vezes no preparo das saladas e, eventualmente, das sobremesas.
Pra começo de conversa, ou melhor, como entrada, vêm os "belisquetes": a coxinha da asa e o coraçãozinho de galinha que as crianças adoram mas eu não como, a linguicinha já cortada, oferecida na tábua com um bocado de farinha. Todos (ou quase todos) ainda estão em pé, circulando entre a mesa e a churrasqueira, bebericando uma caipirinha (menos frequente do que seria desejável), ou já partindo para a cerveja, o vinho e os refrigerantes. As mães dos pequenos empenham-se em faze-los sentar e dedicam-se a servi-los com atenção (às vezes reforçam seus pratos com feijão e arroz).
As saladas são colocadas na mesa e o churrasqueiro adverte: "já podem ir sentando, está ficando pronto" e, para quem gosta de mal passado (outra de nossas tradições) não dá para ficar se "amarrando". Muitos se jogam no pão temperado que sai quentinho do espeto. Saladas verdes, de tomates e de batatas são repartidas. Costuma ser essa a regra, mas não foi assim no nosso último encontro. Estreou-se uma salada nova, feita de lãminas de abobrinhas cruas mais mozzarela de búfala e temperada com limão e manjericão. Super saudável, uma delícia!
Para quem "precisava" de um reforço de carboidrato, foram colocadas na grelha batatas (pré-cozidas) para as quais se providenciou um generoso molho de gorgonzola.
Bem, então, chega o grande momento das carnes: usualmente vazio (fraldinha), picanha, às vezes lombinho, mas neste dia paleta de cordeiro e maminha de angus.
Tudo é consumido com muito prazer, grande dose de alvoroço, um toque de bagunça e, é claro, recheado de elogios ao churrasqueiro (indispensável para que o ritual se repita)
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Quando o cenário é (quase) tudo
Não são poucos os restaurantes (e bares e hotéis, etc. etc.) que apostam no cenário, ou melhor, que se valem do cenário para oferecer um serviço que não é lá essas coisas. O encanto da paisagem ou mesmo a beleza da decoração consegue, às vezes, nos distrair e nos levar a perdoar se a refeição (ou a hospedagem) não tem a qualidade desejada.
Quando nos deparamos com um cenário inusitado como o de Veneza, tudo parece, então, ficar em segundo plano.
Essa cidade é diferente, sem dúvida. A onipresença da água, a ausência dos automóveis, as inúmeras pontes e vielas, tudo cria um clima distinto, incomparável a qualquer outro lugar. Por lá, comi em vários lugares. Nem todos bons, com certeza. E quase todos caros. Veneza é uma cidade que vive do turismo acima de tudo e explora isso de todas as formas.
Num dia de greve, com os transportes públicos todos parados, os gondoleiros, mais do que nunca, garantiram sua "féria". Remavam de um lado para outro o tempo todo, sempre ocupados. O terraço de um belo hotel foi o cenário escolhido para nosso almoço.
Devo confessar que estava mais preocupada em descansar os pés de tanto andar e disposta a perder o olhar na paisagem do que propriamente atenta ao que pedir. Mas a escolha foi boa: uma grande salada com um pouco de vinho. Não comprometeu o cenário, esse sim magnífico!
Quando nos deparamos com um cenário inusitado como o de Veneza, tudo parece, então, ficar em segundo plano.
Essa cidade é diferente, sem dúvida. A onipresença da água, a ausência dos automóveis, as inúmeras pontes e vielas, tudo cria um clima distinto, incomparável a qualquer outro lugar. Por lá, comi em vários lugares. Nem todos bons, com certeza. E quase todos caros. Veneza é uma cidade que vive do turismo acima de tudo e explora isso de todas as formas.
Num dia de greve, com os transportes públicos todos parados, os gondoleiros, mais do que nunca, garantiram sua "féria". Remavam de um lado para outro o tempo todo, sempre ocupados. O terraço de um belo hotel foi o cenário escolhido para nosso almoço.
Devo confessar que estava mais preocupada em descansar os pés de tanto andar e disposta a perder o olhar na paisagem do que propriamente atenta ao que pedir. Mas a escolha foi boa: uma grande salada com um pouco de vinho. Não comprometeu o cenário, esse sim magnífico!
sábado, 10 de novembro de 2012
A tranquilidade da serra
Pode ser um belo programa subir a serra. Para quem mora em Porto Alegre o acesso é fácil, dá até para escolher o caminho: a estrada antiga, chamada de "rota romântica", cheia de curvas e plátanos ou a que passa por Taquara, com duas pistas largas, mais segura ainda que menos bonita. Prefiro a antiga que é marcada por pequenas cidades, pontilhada de picadas e "paradouros", onde se costuma ter vistas amplas, dá para tomar um café ou comprar biscoitos, erva-mate e bugigangas. Por essa via, no último fim de semana, descobrimos mais um caminho, um desvio da estrada principal que pretende se constituir como um "caminho das artes", ao longo do qual artesãos, artistas plásticos e pintores vêm se instalando.
Enfim, seja qual for o trajeto escolhido, a subida da serra representa uma escapada da cidade grande. Ali se experimenta, supostamente, um ritmo menos agitado, tudo é menos barulhento, mais tranquilo. Doce ilusão! Tendo se firmado como um dos mais importantes polos turísticos do Rio Grande do Sul, a região das hortênsias (Gramado e Canela à frente) está a mil nesses tempos que antecedem o fim do ano. Os turistas são despejados em bandos por imensos ônibus que chegam de toda parte do país, as lojas e restaurantes exultam com os consumidores ávidos. Papais (e mamães) Noel, árvores, guirlandas e bolinhas coloridas estão por todo lado. Um cheiro de chocolate se espalha pelo ar. Fica quase difícil perceber as flores (embora elas estejam exuberantes) e o verde dos pinheiros naturais pois tudo parece "afogado" pelos enfeites natalinos.
É claro que, num cenário como esse, os restaurantes são disputadíssimos. Muito melhor será, então, o almoço feito em casa, preparado com graça e cuidado.
Nossa escolha foi salmão com molho de amêndoas e maracujá, acompanhado de ervilhas tortas e cogumelos. Beeem mais saudável do que as setenta e tantas ofertas dos "cafés coloniais" que costumam atrair os afoitos!
Uma receita sem mistérios: enquanto o salmão ia para o forno, já temperado com sal e pimenta, as amêndoas em lâminas eram tostadas numa grande frigideira (com um nadinha de azeite e todo o cuidado para que não queimassem). Em seguida, a polpa de maracujá congelada foi colocada na panela para aquecer, acrescentando um pouco de pimenta. Para que o molho tivesse boa consistência foi necessário juntar um pouquinho de maisena. Os cogumelos portobelo bem grandes foram fatiados e salteados no azeite bem como a ervilha torta. Tudo muito rapidamente para garantir que a ervilha ficasse crocante. E estava pronta a refeição. Que tranquilidade!
Enfim, seja qual for o trajeto escolhido, a subida da serra representa uma escapada da cidade grande. Ali se experimenta, supostamente, um ritmo menos agitado, tudo é menos barulhento, mais tranquilo. Doce ilusão! Tendo se firmado como um dos mais importantes polos turísticos do Rio Grande do Sul, a região das hortênsias (Gramado e Canela à frente) está a mil nesses tempos que antecedem o fim do ano. Os turistas são despejados em bandos por imensos ônibus que chegam de toda parte do país, as lojas e restaurantes exultam com os consumidores ávidos. Papais (e mamães) Noel, árvores, guirlandas e bolinhas coloridas estão por todo lado. Um cheiro de chocolate se espalha pelo ar. Fica quase difícil perceber as flores (embora elas estejam exuberantes) e o verde dos pinheiros naturais pois tudo parece "afogado" pelos enfeites natalinos.
É claro que, num cenário como esse, os restaurantes são disputadíssimos. Muito melhor será, então, o almoço feito em casa, preparado com graça e cuidado.
Nossa escolha foi salmão com molho de amêndoas e maracujá, acompanhado de ervilhas tortas e cogumelos. Beeem mais saudável do que as setenta e tantas ofertas dos "cafés coloniais" que costumam atrair os afoitos!
Uma receita sem mistérios: enquanto o salmão ia para o forno, já temperado com sal e pimenta, as amêndoas em lâminas eram tostadas numa grande frigideira (com um nadinha de azeite e todo o cuidado para que não queimassem). Em seguida, a polpa de maracujá congelada foi colocada na panela para aquecer, acrescentando um pouco de pimenta. Para que o molho tivesse boa consistência foi necessário juntar um pouquinho de maisena. Os cogumelos portobelo bem grandes foram fatiados e salteados no azeite bem como a ervilha torta. Tudo muito rapidamente para garantir que a ervilha ficasse crocante. E estava pronta a refeição. Que tranquilidade!
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Um jantar poderoso
Para muita gente, o 5e arrondissement representa o coração de Paris. Uma das regiões mais antigas da cidade, abrange a maior parte do quartier latin, o bairro intelectual e boêmio. Ali se encontram o Collège de France e a Sorbonne, escolas superiores e liceus, divisões da Universidade de Paris, livrarias, bibliotecas e também uma quantidade incrível de bistrôs, restaurantes, bares, cinemas e teatros. É sempre delicioso passear por suas ruas, descobrindo ou redescobrindo espaços de arte, lazer, cultura, gastronomia.
Foi ali que decidimos fazer nosso jantar de despedida da viagem. Não lembro o nome do lugar (o que é uma pena), mas lembro que ficava próximo à rua de l'Estrapade. Era um bistrô muito pequeno e gracioso com poucas mesas. O cardápio estava exposto em três quadros-negros.
Chegamos cedo e por isso conseguimos um lugar (aparentemente todas as outras mesas estavam reservadas e foram logo ocupadas). O restaurateur veio nos receber com seu cachorro que (vale notar) circulou junto com seu dono pelo pequeno salão durante todo o jantar. Simpático, o dono trouxe até nossa mesa um a um dos quadros negros onde se podia escolher um prato de entrada, um prato principal e uma sobremesa. Apesar de descrever com entusiasmo todas as opções, preferimos deixar que ele nos aconselhasse e, assim, seguimos suas preferências e sugestões.
Nossa entrada constituiu-se de um "foie-gras mariné à la mûre et au jurançon". Fiquei encantada. Provavelmente era a primeira vez que eu provava um autêntico "foie-gras". Apresentado de modo simples, sobre uma espécie de "tábua" ou lâmina de ferro, a fatia de foie vinha acompanhada por uma pequena salada e um pão rústico torrado.
A seguir, o prato principal foi anunciado com muita circunstância pelo dono: "aoxa d'espelette". Eu não tinha ideia do que se tratava. Orientada por ele, fiquei sabendo que essa é uma receita basca tradicional que sua família costumava fazer com frequência. Trata-se de um prato muito forte, de carne (vitela) ensopada com batatas, bem apimentado. Como diria minha mãe: "um prato de levantar mortos!"
A esssa altura estávamos, minha amiga e eu, plenamente satisfeitas. Mas havia a sobremesa e, da atraente lista que nos foi apresentada, mais uma vez seguimos a sugestão do restaurateur e optamos pela "assiette de figues rôties".
Um jantar poderoso com certeza!
Foi ali que decidimos fazer nosso jantar de despedida da viagem. Não lembro o nome do lugar (o que é uma pena), mas lembro que ficava próximo à rua de l'Estrapade. Era um bistrô muito pequeno e gracioso com poucas mesas. O cardápio estava exposto em três quadros-negros.
Chegamos cedo e por isso conseguimos um lugar (aparentemente todas as outras mesas estavam reservadas e foram logo ocupadas). O restaurateur veio nos receber com seu cachorro que (vale notar) circulou junto com seu dono pelo pequeno salão durante todo o jantar. Simpático, o dono trouxe até nossa mesa um a um dos quadros negros onde se podia escolher um prato de entrada, um prato principal e uma sobremesa. Apesar de descrever com entusiasmo todas as opções, preferimos deixar que ele nos aconselhasse e, assim, seguimos suas preferências e sugestões.
Nossa entrada constituiu-se de um "foie-gras mariné à la mûre et au jurançon". Fiquei encantada. Provavelmente era a primeira vez que eu provava um autêntico "foie-gras". Apresentado de modo simples, sobre uma espécie de "tábua" ou lâmina de ferro, a fatia de foie vinha acompanhada por uma pequena salada e um pão rústico torrado.
A seguir, o prato principal foi anunciado com muita circunstância pelo dono: "aoxa d'espelette". Eu não tinha ideia do que se tratava. Orientada por ele, fiquei sabendo que essa é uma receita basca tradicional que sua família costumava fazer com frequência. Trata-se de um prato muito forte, de carne (vitela) ensopada com batatas, bem apimentado. Como diria minha mãe: "um prato de levantar mortos!"
A esssa altura estávamos, minha amiga e eu, plenamente satisfeitas. Mas havia a sobremesa e, da atraente lista que nos foi apresentada, mais uma vez seguimos a sugestão do restaurateur e optamos pela "assiette de figues rôties".
Um jantar poderoso com certeza!
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Na região do Chianti
Através do cinema, da pintura e da literatura, fui construindo uma imagem do que seria a Toscana. Sonhava em percorrer aquela região, plena de videiras e oliveiras que, acreditava, sugeria calma e tranquilidade. De algum modo consegui espiar um pouquinho disso. Depois de alguns dias aproveitando dos encantos de Florença, partimos numa excursão de ônibus em direção à região do Chianti.
Agora sim, o verde enchia nossos olhos, os vinhedos eram constantes. Paramos, inicialmente, na pequena e graciosa San Gimignano; seguimos para Siena que, tenho de confessar, me pareceu soterrada pelos turistas (como nós). Pouco deu para apreciar suas ruas, a catedral, a fonte, a enorme praça. Em tudo e por tudo muita gente (e muito calor!). Consegui recuperar um pouco da paisagem sonhada quando retornamos ao ônibus e prosseguimos até Monteriggioni para, depois, aportar numa pequena "azienda agricola", a Poggio Amorelli, onde teríamos a esperada degustação de vinhos, queijos e outras iguarias da terra.

Não me decepcionei. Fomos recebidos pelo casal proprietário da vinícola que, depois das usuais explanações sobre a produção da uva e dos vinhos, acomodou-nos numa sala e passou a nos apresentar alguns de seus produtos. Seja pela forma como o homem conduzia a apreciação dos vinhos (e também do queijo pecorino, dos azeites e do salame toscano) seja pelo efeito dos vários cálices e da proximidade provocada pelas grandes mesas, o fato é que alguma coisa mudava naquela gente que, até então, parecia estar "cada um na sua".
Agora todo mundo conversava e trocava opiniões. Misturavam-se várias línguas (italiano, espanhol, português, inglês...). De repente formava-se um grupo e algumas curiosidades e informações se repartiam.
Dos vinhos que provamos, apreciei especialmente um "morellino di scansano" DOCG (Poggio Barbone). DOCG, ou seja, Denominazione di Origine Controlata e Garantita implica num selo que garante a mais alta classificação para os vinhos italianos. Efetivamente estou longe de ser uma conhecedora de vinhos, mas achei muito saboroso. Tivemos chance de provar também um Chianti Classico DOCG Reserve (da própria Poggio Amorelli) que, segundo nos informou o proprietário, havia alcançado 98 pontos na avaliação da revista Wine Spectator.
Animados pelo vinho e pela conversa, muitos compraram produtos ou se espalharam pelos vinhedos, como eu. Um lindo passeio.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Por aqui, preparando o verão
A mesa florida parecia anunciar o verão neste domingo. Estávamos mudando o horário, com uma hora de sono a menos, o dia prometia ser quente. Tudo sugeria que o almoço deveria ser leve: uma salada apenas, acompanhada de uma espécie de pão crocante que, afinal, consistia numa lâmina de massa folhada levada ao forno.
A salada muito colorida não se revelava simplesmente ao olhar. Em vez disso, sugeria o desafio de adivinhar seus ingredientes. A cada mordida uma descoberta: tomatinhos cerejas (sim, isso era fácil, mas eles se apresentavam um tanto "dferentes" pois haviam sido levemente tocados pelo vapor), passas de figo, tâmaras, tirinhas de haddock defumado, cebolinhas italianas em conserva (bem suaves, nada avinagradas), cogumelos...
Por aqui também tem muita coisa boa, não é preciso viajar tanto!!
Por aqui também tem muita coisa boa, não é preciso viajar tanto!!
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Fruteiras e mercadinhos
Andar à toa pelas ruas, espiando um pouco das coisas e das pessoas do lugar é uma das delícias de uma viagem. Com a pretensão de ser mais uma delas, tentamos assumir um tom casual, tentamos nos misturar. Obviamente tudo não passa de um faz-de-conta. Somos estrangeiras, inevitavelmente. Nem é preciso abrir a boca. Nossos gestos nos traem. Não sabemos dos modos, costumes e jeitos daquele canto do mundo. Pior do que isso, somos turistas, espécie que, embora aceita ou, quem sabe, até desejada, costuma ser, muitas vezes, um tanto predadora. Turistas usam consumir depressa, têm olhar indiscreto, querem ouvir, saber, sorver, em pouco tempo, o máximo possível.
Mas às vezes conseguimos deixar de lado a voracidade e nos contentamos em provar um tantinho só da vida local. Na fruteira de uma esquina qualquer, numa venda modesta, longe dos endereços famosos, podemos ter um relance do cotidiano. Imitamos a gente comum e compramos uma fruta para sair comendo pela rua. Talvez isso seja tudo o que podemos fazer, ainda que a vontade fosse carregar um cesto com legumes e verduras que parecem incrivelmente frescos e preparar em casa uma refeição inteira, de verdade.
Em Florença, San Gimignano ou Veneza, nos encantamos com a doçura das frutas e com o frescor dos produtos. E o que dizer da variedade de arroz que se oferecia?
Assinar:
Postagens (Atom)









