domingo, 16 de setembro de 2012

Um jantar à beira do rio

A caminho da zona sul se vislulmbra o Guaíba. O brilho d'água traz encanto e graça à paisagem. Pouco importa se o que se vê é um rio, um lago ou um estuário. Como tantos portoalegrenses, uso a denominação aprendida e repetida com orgulho e afeto: Guaiba é o rio que banha Porto Alegre e ponto. Curioso é que, apesar de reconhecer sua beleza e, com algum exagero, apregoar que dali se contempla o mais lindo por-de-sol do mundo (gaúcho nunca faz por menos os elogios à sua terra), vivemos quase todo o tempo de "costas para o rio". Mais um lugar comum: reconhecemos que a cidade está divorciada do rio e que o muro, construído há alguns anos para conter eventuais enchentes, é apenas a expressão mais violenta desse divórcio mas, mesmo assim, a demora do olhar sobre o Guaíba é pouca, quase sempre. Espiamos o rio de relance, pela janela do carro, ou talvez andando de bicicleta no parque Marinha ou quando vamos em direção ao estádio do Inter.

Por tudo isso, o convite para jantar num belo restaurante debruçado para o Guaíba é especial. O Le Monde Villa Lina chegou a Porto Alegre não faz muito tempo. É verdade que, por ali, outros já tentaram a empreitada gastronômica, mas a arrogância e rudeza do atendimento levou o prazer água abaixo. No Le Monde Villa Lina a história é outra. O restaurante instalou-se num casarão do século passado e soube transformá-lo sem descaracterizar o que deve ter sido uma 'villa', uma "casa para fora". Digo isso porque imagino que, em 1911, aquela região (Pedra Redonda, Tristeza, Ipanema) certamente ficava além dos limites da cidade.

Na noite em que visitei o Villa Lina chovia e ventava muito, por isso não tive chance de apreciar o jardim que, de qualquer modo, me pareceu espaçoso e bem cuidado. Mas conseguimos uma mesa junto aos janelões e, então, ao mesmo tempo em que examinava o generoso cardápio e a carta de vinhos, joguei o olhar para o rio que chegava a formar pequenas ondas na areia por causa do vento. Gostei muito do lugar e do modo como fui tratada. O restaurante tem seu requinte, o espaço é bonito, a cozinha é competente, o serviço, atento, mas não se percebe qualquer preocupação em "aparentar" requinte. Tudo flui com naturalidade. Garçons e chefe atenciosos e "leves". Isso! Leveza! Taí uma coisa que valorizo.

Escolhi um prato tailandês: "pad thai de camarões Le Monde", acompanhado de um vinho português. Delicioso, talvez um tanto "grande' demais para meu apetite, mas correto.

Quero voltar mais vezes. Imagino que seja adorável comer ali numa noite de verão.




terça-feira, 4 de setembro de 2012

Sabores antecipados

Já encontrei gente que compreende a comida, ou melhor, as refeições como algo que é necessário para manter o corpo em pé, para manter-se vivo. Isso e somente isso. Não posso esquecer o jantar que preparei para receber a amiga de uma amiga. Eu pretendia agradecer-lhe a hospedagem que generosamente me dera numa viagem e, para isso, procurei caprichar nos pratos, na apresentação, etc. Não tenho mais ideia do que preparei, pois isso aconteceu há muito tempo, mas não esqueço que essa pessoa me disse que para ela não importava, absolutamente, o que iria comer, bastava que sustentasse seu corpo (magro, diga-se de passagem). Aparentemente ela não tirava da mesa qualquer prazer especial. Meu jantar-agradecimento, portanto, pareceu-me destituído de valor. Uma grande decepção.

Felizmente conheço poucas pessoas que pensam assim. Deve haver por aí, mas não estão na minha  roda de amigos e de referência. Bem ao contrário disso, conheço um monte de gente que, tal como eu, antecipa gostos e sonha com sabores, odores e situações ligadas à boa mesa. Gente que, à simples menção de um prato ou de um ingrediente, é capaz de pressentir seu gosto. Essa antecipação dos prazeres pode ser deliciosa e também, evidentemente, tem seus riscos.

Ao preparar-me para uma viagem, como estou fazendo agora, recolho dicas e sugestões de amigos que já andaram por onde vou andar. Além das indicações de hoteis, pontos turísticos que valem a pena, museus, espaços de arte, lojinhas interessantes, surgem sempre boas sugestões de restaurantes, mercados, lugares para provar e comprar produtos típicos, um vinho especial, uma receita imperdível. Adoro essa fase preparatória de uma viagem! Lembro que meu pai e meu avó, outros dois viajantes inveterados da família, diziam que essa antecipação costuma ser tão gostosa quanto a viagem propriamente dita (quem sabe algumas vezes até melhor que a viagem, pois não implica em pés cansados, calor e filas, esperas ou frio congelante).

Nesses tempos de internet, essa fase preparatória ganhou, contudo, algumas características tão "realistas" que, por vezes, tenho medo que estrague o sonho. Percebi isso há poucos meses atrás, antes de viajar para Nova York. Como já conhecia bem a cidade e tinha meus lugares preferidos de  lojas gourmet, por exemplo, entrei no site dessas lojas e fui espiar o que ofereciam. Evidentemente fiquei muito bem informada sobre produtos e preços, mas confesso que isso "matou"  um tanto a graça de circular por entre estandes e prateleiras, ver e pegar os frascos, latas e caixinhas e me surpreender com eles. Hoje, praticamente podemos "andar" pelas ruas usando o bonequinho do google maps e, se isso aguça o desejo de conhecer de perto os bairros, pontes e praças, por outro lado desvenda, pelo menos em parte, seus segredos. Pensei em tudo isso quando, há pouquinho, "entrei" num restaurante recomendado por vários amigos em Florença e tive até a chance de abrir o cardápio (reduto final onde se anunciam e abrigam os sabores daquele lugar específico). Fechei o site. Não vou antecipar mais nada. Quero guardar para daqui a alguns dias o prazer do imprevisto, a graça da descoberta.

domingo, 26 de agosto de 2012

Na onda das cocottes

De uns tempos para cá, as cocottes vêm aparecendo cada vez mais. Elas não são uma completa novidade, mas certamente deixaram de ser exclusivas dos bistrôs e restaurantes chiques. Graciosas e coloridas, essas caçarolas ou panelinhas refratárias (de marcas famosas e caras, como as Le Creuset ou Staub ou de marcas nacionais) estão disponiveis nas lojas especializadas em casa/cozinha e, com muito charme, aterrisam em nossas mesas.

Junto com as panelinhas, ou melhor, fazendo parte desse processo, circulam receitas de refeições simples, saudáveis, elegantes e até mesmo sofisticadas. E surgem cursos, degustações, etc. etc.

Ainda não ensaiei minhas receitas. Mas provei uma combinação deliciosa na casa de um amigo há poucos dias. Apreciei o preparo rápido e singelo de "ovos na cocotte".

No fundo da panelinha, meu amigo colocou uma camada de queijo tipo quark. Sobre ela, partiu dois ovos (com muito cuidado para que a gema ficasse intacta). Temperou com sal, pimenta e ervas. Tampada a cocotte, colocou no forno por quinze minutos, mais ou menos. (O forno já estava pré-aquecido). Para acompanhar, pão, muffins de nozes e vinho tinto.


Como tenho fama de gulosa (injusta fama, talvez!), pensei que a refeição não sustentaria o almoço. Mas realmente estava enganada. Embora delicado, o prato é, ao mesmo tempo, forte o suficiente para aquecer o corpo e a alma por um  bom tempo.

Uma outra versão desse mesmo prato pode ser feita -- e também já tive chance de experimentar -- substituindo o queijo quark por brie. Fica talvez um pouco mais forte mas é igualmente deliciosa!!

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Festas de saladas

Já fiz algumas "festas de saladas" em minha casa. Acho um jeito prático de receber, especialmente no verão. Costuma agradar quase todo mundo, sugere informalidade, deixa à vontade anfitriã e convidados. Mas para sustentar um encontro desse tipo é preciso ter várias opções de saladas e caprichar na apresentação, na variedade e combinação de ingredientes, nas cores. Nada a ver com as oito, nove, dez saladas anunciadas por alguns bufês que consistem em uma travessa de tomates fatiados, uma travessa de beterraba ralada, outra de cenoura ralada, outra de couve (também ralada, é claro!), outra de alface com o "espantoso" adicional do queijo ralado (supostamente uma salada Ceasar), e por aí vai...Enfim, a maquininha de ralar legumes funcionando a mil e a imaginação a zero!!

Há algumas saladas clássicas que vale a pena ensaiar. Mas minha pretensão aqui é mais modesta. Pensei em compartilhar uma listinha  que fiz, há alguns anos atrás, para me ajudar na hora de inventar ou montar esses pratos. Nada de muito original ou extraordinário, mas lembro que a tal listinha acabou circulando entre alguns amigos interessados.

Ingredientes para possíveis combinações
folhas (alface, rúcula, espinafre, agrião, manjericão, endívia, repolho...)
tomate, cenoura, pepino, xuxu, rabanete, beterraba
aipo, palmito, aspargo
cogumelos
couve-flor, brócolis, ervilha-torta, vagem
cebola, pimentões, abobrinha, beringela, ovos cozidos
massa, batata, arroz, grão-de-bico, feijão branco ou mulatinho...

Uma certa graça se misturar
queijos (muzzarela, branco, parmesão, brie...)
crouton (c/ ou s/ alho)
azeitonas
tomates secos
frutas secas (nozes, passas, amêndoas, castanhas, damascos...)
frios e embutidos (presunto, salmão ou peito de peru defumado, salamito...)
camarão, atum
frutas (laranja, uva, maçã, kiwi, melão...)

Nos molhos
azeite, ervinhas, pimenta
vinagre balsâmico
yogurte, mostarda, limão
curry, shoyu

Para estimular seguem algumas imagens. No mais é experimentar as combinações. Ousar, repetir o que der certo e desprezar o que não agradar ao paladar.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Meu restaurante preferido

Há vários anos atrás, numa noite fria do inverno portoalegrense, rodávamos de carro pelo Moinhos de Vento quando nos deparamos com um restaurante novo que parecia acolhedor e charmoso e que apresentava do lado de fora um quadro negro anunciando caldo verde. Parecia uma boa pedida naquele momento. Entramos e gostamos do ambiente: uma sala aconchegante, muita madeira, um certo ar "portenho"... Praticamente vazio, só uma mesa estava ocupada por dois homens. Sentamos e pedimos o caldo verde e um vinho. Chegou acompanhado de um pão artesanal. Tudo perfeito. A dona do restaurante veio conversar conosco, falamos que o lugar nos agradava e, em seguida, um dos homens da mesa integrou-se à conversa. Era o marido, também proprietário, que se mostrava contente com nossa visita e apreciação. Uma estreia nada ruidosa para um restaurante que hoje é um dos mais conhecidos e frequentados de Porto Alegre, o Le Bistrot.

Tornou-se meu restaurante preferido na cidade. Continua acolhedor, intimista (pelo menos no inverno), e cheio de gente e movimento nos almoços e nos fins de tarde, especialmente em torno das mesas que, agora cobertas por imensos ombrelones, tomaram conta da calçada. Talvez tenha se tornado, para muitos, um lugar "para ver e ser visto", mas para mim se mantém como um espaço de comida bem feita e bem apresentada, tudo garantido pelo atento olhar dos donos. O sucesso é indiscutível e fez com que eles abrissem outros dois restaurantes, também muito charmosos e agradáveis.


Adoro o buffet que é servido nos almoços de sábado e domingo. E, nas noites de domingo, quando rareiam os lugares para comer bem em Porto Alegre, o Le Bistrot se mantém aberto e acolhedor.
No último fim de semana, estive por lá com amigos. Como não queríamos jantar, pedimos umas entradas, tiras de filet e burrata, como petiscos para acompanhar um bom vinho. Estava delicioso.


sábado, 11 de agosto de 2012

A feirinha ecológica da Redenção

Acontece de tudo na Redenção. Desde há muito tempo, desde sempre. Na verdade, o "parque Farroupilha", nome oficial, é quase tão antigo quanto Porto Alegre e sua história está, é claro, muito  entrelaçada à história da cidade. Nos primeiros anos do século XIX, quando surgiu, era chamado de  Campos da Várzea do Portão, já que ficava próximo ao portão da cidade, depoiis passou a se chamar de Campos do Bom Fim e, em 1884, Campos da Redenção, em homenagem a um episódio de libertação de centenas de escravos que ocorreu precisamente ali, um pouco antes da abolição.

Quase todo mundo fala na Redenção, com afeto e no feminino, e o lugar é espaço das manifestações políticas e culturais, da parada da diversidade sexual, das caminhadas e bicicletas, das crianças e dos velhos, dos descolados, dos artistas e dos músicos, do tradicional brique, aos domingos e da feirinha ecológica, aos sábados.

Tudo isso acontece há muitos anos. Mas tenho a impressão que ganhou realce de uns tempos para cá. Seja pela crescente preocupação com a saúde e a boa forma, seja pelo prazer de escolher diretamente produtos frescos e naturais, seja pela graça de preparar refeições saudáveis e personalizadas, o fato é que a feirinha dos sábados está "bombando" cada vez mais.

Outro dia, pensando neste blog, resolvi fazer umas fotos. A pretensão tornou-se impossível de executar, tal a dificuldade que encontrei para circular entre as barraquinhas muito próximas umas das outras e a quantidade de gente que buscava, como eu, produtos sem agrotóxicos.

Tive mais sorte hoje. Provavelmente porque, lá em Londres, o Brasil tentava o ouro no futebol. Não deu o ouro, mas consegui as fotos e comprei frutas, verduras, flores, ervas e temperos. Experimentei um pouquinho de mel, espiei as ofertas de grãos e cereais, os sucos, as geléias sem açucar. Conversei com gente simpática, vendedores ligados a cooperativas que sabem para que serve tal ou qual produto, dão dicas de como fazer os preparos. Um passeio agradável, ainda mais num dia ensolarado.









E, logo adiante, quando já estava quase indo embora, surpreendi o homem que se preparava para encarnar um palhaço e vender balões para a garotada. Não pude resistir. Tinha de registrar a cena!


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Taste Vin

Retornei ao Taste Vin, de Belo Horizonte, há poucos dias atrás. O restaurante, que também se constitui como uma loja de vinhos, continua charmoso e muito concorrido. Sem pressa, prolongamos a apreciação do couvert que estava tão saboroso quanto a conversa que animava o trio de amigos.

Na hora da escolha, resolvi experimentar o "cherne em crosta de macadâmia com banana da terra e ketchup de pimentão", pois tinha notícia de que o prato era delicioso. Confirmou-se a informação. realmente o peixe faz uma combinação delicada com a banana e o resultado é especial.



Meus amigos foram fiéis àquele que é, aparentemente, um dos carros-chefe da casa: o soufllé.


Um encontro saboroso. Um lugar no qual se combinam refinamento, boa mesa e informalidade. Para mim, a receita perfeita!