segunda-feira, 15 de julho de 2013

Saudades de feijoada

É tempo de feijoada em Porto Alegre. Aqui, diferentemente de outras regiões do país, é quando o calendário anuncia o inverno que os grandes restaurantes e hoteis também anunciam suas "temporadas de feijoada". Isso não quer dizer que o prato esteja ausente em outros períodos do ano ou que não apareça, com regularidade, nos buffets à quilo e nos restaurantes populares. Mas quando chega o inverno é com pompa e circunstância que o ritual da feijoada com todos os seus ingredientes e aparatos entra triunfalmente em cena. Pelo menos pelas bandas do sul.



Sempre adorei esses momentos. Muito especialmente quando ia no Plazinha, um dos hoteis mais tradicionais da cidade que, desde os anos 1970, é famoso por sua feijoada nos sábados de frio. Logo ao sair do elevador a gente já se deparava com uma mesa atraente com pasteizinhos, linguiça, aipim frito e batidas de cachaça e frutas. Eu costumava fazer meu prato de aperitivo e pedir uma batidinha de côco que, ao fim e ao cabo, era depois repetida e virava minha bebida durante a refeição.

Escrevo no passado não porque o ritual tenha se extinguido, eu é que não tenho mais retomado o hábito. Acabei de algum modo submetida aos discursos, ou melhor, às "pregações" saudáveis que, cotidianamente, recomendam alimentação balanceada, rica em verduras, legumes e frutas, peixes e carnes magras. Que chatura!

Curioso é que a primeira lembrança que tenho de comer uma feijoada "comme il faut", foi no Rio de Janeiro, de biquini, à beira-mar, em Copacabana. Nenhuma preocupação com saúde, o que certamente se explicava por minha juventude e total desconhecimento das ladainhas saudáveis; nenhuma referência ao frio, pois o sol ardia na calçada e na pele. Sentada num boteco com meus primos, descalça e despreocupada, experimentei com prazer a feijoada. E fui seduzida de imediato por tudo aquilo.

Anos depois, em tempos de São Paulo, a feijoada voltou à minha vida. Agora era no Bexiga, com um grupo de amigos, aos sábados (naturalmente) num almoço que não tinha hora para acabar. Na verdade um almoço que costumava se estender por toda a tarde. Pagava-se por cabeça (e pouco) e podia-se repetir quantas vezes se quisesse. Então o bate-papo corria solto e, de tempos em tempos, o garçom enchia outra vez as cumbucas e nós, que estávamos preocupados em resolver todas as mazelas do país (esse foi um tempo de grandes debates políticos), retomávamos a combinação do arroz, feijão, costelinha de porco, farofa, etc.



Algumas vezes também ensaiei preparar o ritual aqui em casa. Dava certo. Desde a véspera eu me empenhava em dessalgar as carnes, deixar o feijão de molho, encaminhando tudo para o dia seguinte (um sábado "por supuesto"), quando então cozinhava o feijão e as carnes separadamente. Essas eram cuidadosamente escolhidas: sempre preferi as defumadas e determinados tipos de linguiça e deixei de lado o pé, a orelha e o rabo de porco. Depois eu juntava tudo numa grande panela, enquanto numa frigideira refogava a cebola picada e jogava algumas conchas do feijão para engrossar o caldo que fervia. Dada à minha pouca habilidade, geralmente eu comprava a couve já cortada em tirinhas finas e passava no azeite, pois não sou muito chegada ao bacon. Ah! fazia também uma farofa e cortava rodelas de laranja para acompanhar. Cores lindas: preto, branco, laranja, verde...Cheirinho gostoso. E gente, porque feijoada tem graça quando reúne um grupo de pessoas.

Enfim, lembrando todos esses momentos, me dou conta de que não faz sentido abandonar o ritual. De vez em quando vale a pena esquecer um pouco as precauções de saúde e as dietas! 

sábado, 6 de julho de 2013

Quase minimalista

Ainda que a expressão "cozinha minimalista" seja, muito frequentemente, associada ao projeto arquitetônico desse espaço, há também quem a use para lembrar a possibilidade de produzir com poucos elementos, de forma simples e criativa, refeições atraentes e, paradoxalmente, sofisticadas.

Foi o que pensei quando, um dias desses, fui convidada para jantar na casa de um amigo. Cheguei a tempo de participar do processo de construção do que seria nosso prato principal ou único (para ser bem honesta, melhor seria dizer a tempo de acompanhar e registrar o processo).

A ideia foi utilizar forminhas de cupcakes (olhem o post anterior!) ou muffins para preparar uma quiche. Quando cheguei já encontrei no refrigerador as forminhas cobertas pela massa da quiche. Uma massa que é rica em manteiga e que, consequentemente, é gostosa e calórica. A preparação do recheio foi simples: aos ovos batidos foram acrescentados pedacinhos de queijo gorgonzola e finas fatias de cogumelo portobelo. Colocada essa mistura nas forminhas, elas foram ao forno e... pronto!



Sou gulosa, já comentei várias vezes aqui, mas uma só dessas forminhas acompanhada de uma singela salada e vinho acabou por se constituir num jantar absolutamente saboroso e "suficiente". Valeu! 
(Ah, é bom lembrar que as forminhas eram de silicone e isso facilitou muito retirá-las, garantindo um visual perfeito ao final).


quinta-feira, 4 de julho de 2013

A mania dos Cupcakes

De uns tempos para cá os cupcakes passaram a ser onipresentes. Das festinhas infantis aos casamentos, dos aniversários de gente grande às festas de empresa. Com decorações de todos os tipos, temáticas ou não, têm servido de centro de mesa, atraindo a todo mundo. Melhor seria dizer a quase todo mundo pois eu, decididamente, não me incluo na lista dos seus admiradores.

Reconheço que os cupcakes são bonitinhos, coloridos, mas não me parecem nada extraordinários. Aparentemente sua única diferença em relação ao velho bolinho inglês da lanchonete de minha escola ou da padaria reside na cobertura. Servem bem para acompanhar um chá à tarde, mas como ponto alto de festas, fazendo as vezes de  um doce, não me convencem!


Fui buscar informação sobre os ditos bolinhos e constatei o óbvio: é para a cobertura que se voltam as atenções. A massa do bolinho propriamente dita é feita geralmente com farinha de trigo, baunilha açucar, ovos, leite... mas há também os que são feitos com cenoura que parecem mais fofinhos. As receitas para a cobertura quase sempre têm como base cream cheese e açucar de confeiteiro aos quais se agregam outros ingredientes, como limão, chocolate branco, côco, abacaxi, ou mesmo bourbon ou conhaque, quando se deseja um toque mais adulto.

As defensoras do bolinho garantem que a cobertura feita de ganache é muito mais gostosa e dizem que não posso esquecer dos cupcakes recheados que, supostamente, ganham em cremosidade e superam minha crítica de que esse é um bolo seco e sem graça. 

Enfim, acho que estou na contramão de uma preferência nacional e internacional, haja vista esse quiosque que fotografei numa rua de Nova York:


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Em casa, cogumelos recheados

Fico escrevendo sobre comidas e viagens e isso talvez passe uma ideia de glamour que, efetivamente, não é o meu cotidiano. Será o cotidiano de alguém? Quem sabe esse não é um dos efeitos possíveis e recorrentes dos registros virtuais? Inversamente, me pergunto se não seria possível ver/produzir alguma graça (e glamour) no dia-a-dia se nossos sentidos estivessem mais "abertos".

Num dia desses, pensei no que fazer com os ingredientes que tinha à disposição em casa. Estava sozinha e o mais provável seria comer qualquer coisa que tivesse sobrado de refeições anteriores. Talvez complementar com uma salada ligeira, eventualmente preparar uma massinha ou uma omelete ou, quem sabe, descongelar uma porção de arroz e de feijão que costumo deixar de reserva no freezer para os momentos de preguiça.

Mas resolvi que o almoço desse dia poderia ser um pouquinho mais caprichado e que eu merecia mais cuidado (ainda que tal cuidado fosse auto-promovido). Havia no refrigerador alguns itens interessantes que poderiam ser bem combinados: uma caixa de cogumelos portobelo que dentro de alguns dias teria seu prazo de validade esgotado, algumas fatias de presunto cru bem fininhas de uma marca nova que eu havia apreciado e também um pedacinho de queijo de cabra delicioso. Seria simples, muito simples, fazer cogumelos recheados. Aqueci o forno enquanto fazia o preparo, lavando e picando os ingredientes. Por cima de alguns cogumelos coloquei salsinha para dar um toque mais bonito no visual. 


Poucos minutos depois estavam prontos. Foi só isso. Nada espetacular, nada extraordinário, mas que o meu almoço teve alguma graça lá isso teve.





sexta-feira, 7 de junho de 2013

Em Zermatt, a batata rosti

Eu nada sabia sobre o lugar. Para ser sincera, eu sabia pouco sobre a Suiça. Mas nessa viagem, para além da cosmopolita Genebra, tive chance de visitar cidadezinhas e lugarejos quase escondidos.

Zermatt foi um desses lugares. Uma estação de esqui em meio aos Alpes que tem como sua principal referência o Matterhorn, a montanha ícone da região com mais de 4.500 metros de altitude. (Não custa lembrar que, além de cenário de lendárias e dramáticas escaladas, o Matterhorn é também o símbolo do chocolate Toblerone). Mas voltando a Zermatt: esse é um povoado encantador de pouco mais de seis mil habitantes que, na temporada de inverno, tem sua população muitas vezes multiplicada. Uma rua principal -- com suas lojinhas, restaurantes, pousadas, uma praça e uma igreja -- cortada de pequenas ruelas. Nos céus, observamos com curiosidade helicópteros trazendo provisões, gêneros de toda espécie, provavelmente a forma mais viável de abastecer o lugar. Aqui ou ali vemos alguns montanhistas com suas bengalas ou bastões e uns poucos jovens carregando esquis. Seriam, quem sabe, os últimos remanescentes da temporada que findava; afinal estávamos em maio e a primavera já começava, embora a paisagem não parecesse confirmar o calendário.

Alguns companheiros de viagem pegam o funicular que os levará até uma montanha próxima de onde devem observar o Matterhorn mais de perto. Nós decidimos ficar ao pé do monte, explorando o vilarejo. E é assim que, ao final da rua, depois da praça e da igreja, encontramos o restaurante onde iríamos provar o prato típico da região: batata rosti com salsicha. (As nuvens atrapalham o olhar mas lá fundo esta a famosa montanha)


Mas a comida acabaria por não se constituir na única atração do almoço. Antes há que prestar atenção ao lugar: um restaurante modesto, de mobiliário simples e preços acessíveis. Aparentemente nada demais não fosse pelo fato de mostrar, no jogo americano que cobria a mesa, a data de sua inauguração: 1600. Sim, estávamos no mais antigo restaurante da região.



Ensaiamos o pedido, aproveitando que uma das parceiras da mesa fala alemão. Mas a garçonete já se antecipa, sorrindo e respondendo em português. Não há motivo para espanto. Como alguém nos prevenira, embora a língua oficial de Zermatt seja o alemão (pois a comuna faz parte do cantão germânico da Suiça), cerca de 50% de sua população fala o português. Beleza! Tudo parece mais fácil agora.

Quanto ao prato propriamente dito, consiste de batata (crua ou cozida) ralada e frita na manteiga ou  outro tipo de gordura e "prensada" na frigideira de modo a formar uma espécie de panquena, dourada e crocante. À batata ralada podem ser adicionados cebola, bacon, cogumelos, enfim vários ingredientes. O resultado é mesmo saboroso (tanto que comprei um livreto para tentar replicar por aqui as receitas). A salsicha é quase obrigatória num cantão alemão e pode ser de uma infinidade de tipos. Enfim, é uma comida forte, certamente boa para o inverno pois aquece o corpo e a alma dos caminhantes. 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Em Strasbourg, a "tarte flambée"

Estávamos nos aproximando de Strasbourg para iniciar a esperada viagem pelo rio Reno. Situada na região da Alsácia, às margens do rio, a cidade francesa faz fronteira com a Alemanha (na verdade a cidade "continua" do lado alemão com o nome de Kehl). Logo adiante está a Suiça. Portanto uma região fronteiriça, com uma história de disputas e rastros de diferentes culturas. Saimos em busca da famosa catedral que parece surgir "de repente", belíssima e de certo modo surpreendente, por estar quase "prensada" num final de rua, cercada de velhos prédios por todos os lados. Teríamos ali algum tempo livre e o guia nos sugerira experimentar o prato típico da região: a tarte flambée ou flamm'kueche.

Ao longo das ruas estreitas, os restaurantes, ou melhor, os pequenos bistrôs se enfileiram com seus guarda-sóis abertos e cartazes anunciando a especialidade. Conseguimos lugar num deles, muito próximo da catedral o que nos permite comer enquanto apreciamos a paisagem da igreja e o mundo de gente que circula, fotografa, compra souvenirs e exclama em várias línguas.

Os garçons entregam os pedidos rapidamente, afinal o lugar é turístico e o negócio é faturar. Peço um cálice de vinho e a tarte. Quando o prato chega fico um tanto desapontada, pois o que recebo é, segundo me parece, uma pizza fininha, com cogumelos e presunto. Crocante e gostosa, é verdade, mas tão fininha que tenho certeza que não vai saciar meu apetite. De qualquer modo me entrego com prazer ao almoço. 

Ao encontrar os companheiros de viagem, percebo que outros ficaram, tal como eu, desconfiados sobre a eventual diferença entre a tarte e uma pizza paulistana bem caprichada. Efetivamente, constato que a massa e a preparação no forno (geralmente à lenha) é semelhante, no entanto, enquanto a pizza é coberta com molho de tomate, a tarte flambée (que não é flambada, tal como o nome sugere) recebe uma camada de creme de leite fresco ou queijo branco. Depois as coberturas podem variar, como se vê no quadro negro: 


E, para agradar turistas de todos os costados, ainda há barraquinhas que apresentam tudo junto (tartes, pizzas, hot dogs, pretzels, crepes, etc. etc.)...



sexta-feira, 31 de maio de 2013

Da janela, outros campos

Embora viva numa região que exalta seus campos, não posso me considerar particularmente encantada por essas paisagens. Por certo tenho o olhar atraído pelos arrozais e vinhedos do Rio Grande, sou capaz de apreciar a beleza da terra cultivada e das moradas que, aqui ou ali, pontuam o cenário, mas não costumo me demorar nessa contemplação. Olho os campos através da janela, espio um tantinho a vida rural para, logo depois, desviar a vista. Quase de imediato me pego pensando em como seria morar por ali... e um sentimento de isolamento perturba a percepção de sossego que talvez se revele mais forte a outros observadores. 

Mas às vezes a paisagem se impõe por mais tempo. Seja por sua extensão, pela estranheza de uma terra desconhecida ou mesmo por estar "presa" a um trem. Foi assim que me vi, há poucas semanas atrás, instada a admirar campos estrangeiros, passando pela Alemanha, Suiça e Holanda. Não digo que são mais bonitos que os daqui. Simplesmente me dispus a olhá-los por mais tempo.



O primeiro impacto foi a cor. Constato -- sem qualquer originalidade -- o óbvio: a infinidade de tons que se exibem. A primavera estava começando naquela região e, embora o frio fosse ainda muito intenso, tudo brotava. Se nos campos árvores, arbustos, plantações e gramados tinham tonalidades inimagináveis, nas pequenas cidades e vilarejos as flores se mostravam absolutamente deslumbrantes. Arranjadas em jardins cuidadosíssimos, era impossível deixar de fotografa-las.






Mas devo voltar aos campos. Era deles que eu pretendia falar. Em meio às múltiplas tonaliidades de verde, extensos terrenos de um amarelo compacto criavam uma luminosidade inédita. Eram campos de canola, me explicaram. E eles se repetiam magníficos, ao longo das estradas. 


Adiante, lonas pretas protegiam uma preciosidade da gastronomia local: os aspargos. Aprendo sobre a importância de consumi-los imediatamente após a colheita, no dia seguinte, conforme um guia expert nos aconselha. E, além de prová-los de variadas formas (em cremes e acompanhamentos, com peixes e carnes), me encanto de vê-los in natura, nas barracas das feirinhas que se espalham pelas ruas estreitas das pequenas cidades.



A viagem continua. Há mais lugares, pessoas e coisas para lembrar...