sábado, 22 de dezembro de 2012

Voltando às cocottes

Sei que já andei escrevendo aqui sobre a "onda" das cocottes (post de agosto), mas elas me parecem tão graciosas e práticas que resolvi comentar um  pouco mais. 

Quando as cocottes entram em cena a mesa ganha um ar minimalista. Não há travessas, molheiras, talheres de servir, etc.  Diante de cada pessoa somente sua pequena caçarola colorida, tampada, guardando um segredo ou uma surpresa. Para alguns, pode parecer um pouco estranho, talvez o contraponto de uma refeição farta ou generosa. Mas é apenas uma impressão: a cocotte pode encerrar em si mesma uma refeição rica e completa. É possível preparar de tudo: entradas, sopas, ensopados, pratos 'fortes' com peixes, carnes, legumes, ovos e até sobremesas. Enfim, não há limites para a imaginação. 

O visual é charmoso e, para quem mora sozinho, um recurso incrível. As panelinhas vão do forno diretamente à mesa e conservam o calor e o sabor dos alimentos por muito tempo. Com uma dose de imaginação dá para criar refeições perfeitas com poucos ingredientes,evitando sobras na geladeira (ou, quem sabe, delas tirando proveito). 

 A princípio, as cocottes devem ser levadas ao forno tampadas para garantir a formação do vapor interno o que permitirá que o alimento não resseque. Mas também se pode, em algum momento, destampa-las para formar uma crosta de queijo gratinado, por exemplo. 

Aqui temos cocottes que combinam uma primeira camada de polenta, a seguir cogumelos (chileno e porcini secos, previamente hidratados), uma nova camada de polenta e, finalmente, ovo. Foram levadas ao forno sem tampa pois estavam 'generosas' demais!



terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Na vida e na cozinha


"Uma coisa importante na vida e, também na cozinha, é perguntar porque as maneiras de fazer as coisas são assim e não de outro jeito. Isso é a raiz de qualquer descoberta culinária". 
Quem fala assim é Giulio, um dos personagens de Aqueles cães malditos de Arquelau,  de Isaias Pessotti.  O livro de Pessotti não é, contudo, um livro de gastronomia. Longe disso.  É um romance que gira em torno de um grupo de jovens pesquisadores de um centro acadêmico de Milão, no final dos anos de 1960. Dedicados e intensos na busca do conhecimento, esses jovens se embrenham no passado de uma villa da região e acabam descobrindo um inédito manuscrito do século XV. Recolhendo vestígios e juntando peças, terminam por reconstruir histórias proscritas.

O livro mistura mistério, paixões, debates acalorados em torno do saber. Em meio a tudo isso, a curiosidade, o prazer e o diálogo também se fazem, algumas vezes, em torno da comida e da bebida. Saboreando salames e massas, bebendo um pinot grigio ou provando, numa velha trattoria, uma receita especialíssima de faisão preparada pela mulher de Giulio, eles se veem envolvidos em discussões sobre originalidade ou genialidade. O comentário de Giulio, ainda que a propósito de uma receita, pode ser (quem sabe?) tomado como uma tese por seus ouvintes. Espantado com a solenidade da própria frase, Giulio continua
"Quero dizer", atenuou sem muito jeito, "que não se deve empregar um certo tempero ou um modo de cozer só porque se aprendeu assim. Um tempero ou combinação de temperos é usado porque produz certos efeitos bem precisos. Mas o mesmo efeito pode resultar de outros condimentos e isso pode trazer vantagens que o modo tradicional não permitia".
"Giulio, espera um pouco", falou Lorenzo, "um tempero é uma erva, louro, por exemplo. E o efeito dela é, digamos, um certo perfume..."
"Não. Talvez sim, explico", continuou nosso oste, "um tempero é um sabor ou aroma que pode ser dado por uma erva ou um conhaque, por exemplo; mas muitas vezes ele é o resultado de combinações delicadas de diferentes ervas ou outros ingredientes..." 
A conversa continuou adiante:
"Se eu dou as mesmas ervas a Sofia e a Lisa, cada uma fará um tempero diferente, tutto suo. De outro lado, um mesmo tempero pode resultar até de diferentes ingredientes ou misturas deles.
Lorenzo definiu as coisas: "Então temos ingredientes e temperos. Os temperos são produtos dos ingredientes e um mesmo produto pode resultar de diferentes misturas de ingredientes". 
"Bravo professore! Lisa é capaz de produzir o sabor que ela quiser com as mais diversas combinações de ervas, licores, vinhos e especiarias. Foi assim que ela produziu sua receita genial". 


domingo, 9 de dezembro de 2012

Pelos arredores

Não é preciso andar muito para encontrar, nos arredores de minha casa, uma série de restaurantes, bistrôs e bares. Há um ou dois tradicionais, reconhecidos na cidade desde o tempo de meus avós, outros recentes; alguns focados ou especializados em comidas regionais: portuguesa, alemã, italiana e até havaiana; muitos servem almoços na base do bufê, outros ensaiam propostas mais descoladas na tentativa de construir a sua marca.

Há poucos dias experimentei um desses, o pequenino e curioso Chicafundó que fica nos fundos da Refúgio Urbano, uma lojinha interessante. Numa antiga garagem, decorada com originalidade e graça, acomodam-se 27 pessoas (considerando nesse conjunto uma ou duas mesas que são colocadas no ambiente da loja. Não cheguei a espiar para lá mas, pelas risadas, imaginei que ali estava um grupo comemorando aniversário ou festinha de fim de ano). Fui numa sexta-feira à noite para o que chamam de "jantar easygoing" , o qual consiste numa salada, um prato principal e uma sobremesa, planejados pelo chef e disponibilizados no site do restaurante antecipadamente. Não há possibilidade de pedir outra coisa pois, efetivamente, o lugar é pequeno e não oferece muita chance de estocar ingredientes para improvisos (o que se pode constatar pela visão da cozinha onde tres pessoas preparam os pratos). O Chicafundó trabalha sempre com reservas, justamente para garantir que tudo saia nos "conformes". Se, eventualmente, alguém tem alguma restrição alimentar (se é vegetariano, por exemplo) é só avisar no momento da reserva que eles providenciam uma alternativa para aquela pessoa. Esse jantar, mais água sem gás, café expresso e chá sai por R$ 50,00, preço que me pareceu perfeitamente adequado, dado a qualidade da comida e o atendimento personalizado. Naquela noite, a entrada foi um mil folhas de vegetais com camarões grelhados (que se pode apreciar na foto), mais filet mignon com nhoque (que estava admirável) e arrematado por um duo de sobremesas: mousse de chocolate com coulis de frutas vermelhas e pudim de doce de leite.


Poucos dias depois, num sábado ensolarado, fui atraída pelas mesas na calçada de outro pequeno restaurante da redondeza. Já conhecia o Pâtissier por seus quiches e patês que tinha encomendado algumas vezes para servir em casa, mas nunca havia experimentado almoçar no próprio restaurante. Numa rua bem arborizada, amplos ombrelones ajudam a criar uma sombra sobre as mesinhas, o que torna o lugar muito atraente.

O cardápio estava escrito a pincel num prato de sobremesa e, naquele dia, consistia de uma "saladinha de folhas com bacon, crouton e quadradinhos de mozzarela de búfala", seguido de um hamburguer de carne e linguiça preparado no carvão acompanhado de pequenas batatas assadas e, para finalizar, creme brûlé. Um pequeno couvert de torradinhas e uma finíssima fatia de mortadela antecedia a refeição. O preço foi de R$ 69,00. O cálice de vinho chardonnay chileno que pedi acrescentou R$ 18,00 e, com o serviço, a conta ficou em R$ 95,00, o que me pareceu caro.


Enfim, dois pequenos restaurantes que trabalham, ambos, com cardápios pré-definidos e que "entregam o que prometem". Mas seja por uma questão de estilo ou gosto, seja pelo que for, minha preferência vai, sem dúvida, para o Chicafundó. Menos pretensão no atendimento, a acolhida da responsável pela cozinha, o preço justo, tudo isso me fez desejar voltar lá outras vezes. 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Pescados na parrilla

Nos cafés das esquinas tudo parece igual. Os velhos portenhos continuam lendo o jornal do dia diante de sua xícara de café quente e forte mais leite ou creme e um prato de media lunas ao lado. Sob muitos aspectos Buenos Aires continua a mesma. O ar europeu marcado pela arquitetura pesada e nobre dos edifícios ainda está lá, é claro; também se reconhece a altivez dos homens e das mulheres e o tango continua sendo dançado na praça da Recoleta e nas ruas de San Telmo para encantar os turistas. A peregrinação diante do túmulo de Evita permanece inalterada e se renova a cada dia. 

Buenos Aires sempre foi e continua sendo atraente para nós, brasileiros, especialmente para os daqui do sul. A proximidade geográfica e cultural facilita o trânsito. São muitas as referências que nos unem, uma porção de hábitos e expressões partilhadas, um parentesco nos trajes, na música, na gastronomia. Afinal somos todos gaúchos (ou gáuchos, como por lá se pronuncia).

É verdade que a cidade já conheceu dias melhores, mas continua charmosa. E, entre seus pontos de atração, costuma-se apontar os bons restaurantes, onde a carne usa ser a grande pedida (sem esquecer o bom vinho, por supuesto). A tradicional parrillada, quer dizer, o churrasco feito numa grelha (a parrilla) sobre brasas é um must argentino. Sem dúvida a qualidade da carne e a forma de preparo são especiais. Mas nem só de carne vivem os argentinos: massas, lasanhas e pizzas estão por todo lado,  e também empanadas e cozidos, peixes e frutos do mar.

E foi numa dessas visitas a Buenos Aires que acabamos provando pescados à parrilla. Foi num restaurante espanhol chamado Jose Luiz, no bairro da Recoleta. Um lugar acolhedor, um pouco afastado da zona mais fortemente turística. A ideia inicial era provar a paella, mas pareceu interessante experimentar os pescados na parrilla. O prato chegou generoso, combinando cinco peixes: corvina, salmão rosado, salmão branco (que eu não conhecia), badejo e ainda mero ou merluza (não tenho certeza do nome do peixe), mais camarões gigantes (langostins) e ostras. Para acompanhar o garçon sugeriu batatas cozidas sobre as quais ele espalhou, já à mesa, um tanto de páprica picante e páprica dulce. Acompanhamos com um vinho Tapiz malbec. Pareceu dificil, impossível mesmo, dar conta de tudo.


A propósito: vim a descobrir agora, pelo Google, que esse é considerado um dos bons restaurantes de pescado da cidade (está entre os oito melhores). E, devo acrescentar, seus preços são bem razoáveis. Vale experimentar.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Em família

Domingo, feriado, visita de quem mora fora... o motivo pouco importa. Temos um "baita" churrasqueiro na família. Qualquer pretexto é pretexto para reunir o grupo. E churrasco, segundo a tradição do Rio Grande, deve ser preparado pelos homens. Posso ter toda a conviccção do mundo contra divisões/restrições de sexo/gênero mas, nesse caso específico, por puro comodismo (e reconhecimento das indiscutíveis qualidades do cozinheiro em questão) me rendo. Nada faço senão ajudar no arranjo da mesa, às vezes no preparo das saladas e, eventualmente, das sobremesas.

Pra começo de conversa, ou melhor, como entrada, vêm os "belisquetes": a coxinha da asa e o coraçãozinho de galinha que as crianças adoram mas eu não como, a linguicinha já cortada, oferecida na tábua com um bocado de farinha. Todos (ou quase todos) ainda estão em pé, circulando entre a mesa e a churrasqueira, bebericando uma caipirinha (menos frequente do que seria desejável), ou já partindo para a cerveja, o vinho e os refrigerantes. As mães dos pequenos empenham-se em faze-los sentar e dedicam-se a servi-los com atenção (às vezes reforçam seus pratos com feijão e arroz).

As saladas são colocadas na mesa e o churrasqueiro adverte: "já podem ir sentando, está ficando pronto" e, para quem gosta de mal passado (outra de nossas tradições) não dá para ficar se "amarrando". Muitos se jogam no pão temperado que sai quentinho do espeto. Saladas verdes, de tomates e de batatas são repartidas. Costuma ser essa a regra, mas não foi assim no nosso último encontro. Estreou-se uma salada nova, feita de lãminas de abobrinhas cruas mais mozzarela de búfala e temperada com limão e manjericão. Super saudável, uma delícia!

 Para quem "precisava" de um reforço de carboidrato, foram colocadas na grelha batatas (pré-cozidas) para as quais se providenciou um generoso molho de gorgonzola.

Bem, então, chega o grande momento das carnes: usualmente vazio (fraldinha), picanha, às vezes lombinho, mas neste dia paleta de cordeiro e maminha de angus.

Tudo é consumido com muito prazer, grande dose de alvoroço, um toque de bagunça e, é claro, recheado de elogios ao churrasqueiro (indispensável para que o ritual se repita)

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Quando o cenário é (quase) tudo

Não são poucos os restaurantes (e bares e hotéis, etc. etc.) que apostam no cenário, ou melhor, que  se valem do cenário para oferecer um serviço que não é lá essas coisas. O encanto da paisagem ou mesmo a beleza da decoração consegue, às vezes, nos distrair e nos levar a perdoar se a refeição (ou a hospedagem) não tem a qualidade desejada.
Quando nos deparamos com um cenário inusitado como o de Veneza, tudo parece, então, ficar em segundo plano.




Essa cidade é diferente, sem dúvida. A onipresença da água, a ausência dos automóveis, as inúmeras pontes e vielas, tudo cria um clima distinto, incomparável a qualquer outro lugar. Por lá, comi em vários lugares. Nem todos bons, com certeza. E quase todos caros. Veneza é uma cidade que vive do turismo acima de tudo e explora isso de todas as formas.

Num dia de greve, com os transportes públicos todos parados, os gondoleiros, mais do que nunca, garantiram sua "féria". Remavam de um lado para outro o tempo todo, sempre ocupados. O terraço de um  belo hotel foi o cenário escolhido para nosso almoço.


Devo confessar que estava mais preocupada em descansar os pés de tanto andar e disposta a perder o olhar na paisagem do que propriamente atenta ao que pedir. Mas a escolha foi boa: uma grande salada com um pouco de vinho. Não comprometeu o cenário, esse sim magnífico!



sábado, 10 de novembro de 2012

A tranquilidade da serra

Pode ser um belo programa subir a serra. Para quem mora em Porto Alegre o acesso é fácil, dá até para escolher o caminho: a estrada antiga, chamada de "rota romântica", cheia de curvas e plátanos ou a que passa por Taquara, com duas pistas largas, mais segura ainda que menos bonita. Prefiro a antiga que é marcada por pequenas cidades, pontilhada de picadas e "paradouros", onde se costuma ter vistas amplas, dá para tomar um café ou comprar biscoitos, erva-mate e bugigangas. Por essa via, no último fim de semana, descobrimos mais um caminho, um desvio da estrada principal que pretende se constituir como um "caminho das artes", ao longo do qual artesãos, artistas plásticos e pintores vêm se instalando.

Enfim, seja qual for o trajeto escolhido, a subida da serra representa uma escapada da cidade grande. Ali se experimenta, supostamente, um ritmo menos agitado, tudo é menos barulhento, mais tranquilo. Doce ilusão! Tendo se firmado como um dos mais importantes polos turísticos do Rio Grande do Sul, a região das hortênsias (Gramado e Canela à frente) está a mil nesses tempos que antecedem o fim do ano. Os turistas são despejados em bandos por imensos ônibus que chegam de toda parte do país, as lojas e restaurantes exultam com os consumidores ávidos. Papais (e mamães) Noel, árvores, guirlandas e bolinhas coloridas estão por todo lado. Um cheiro de chocolate se espalha pelo ar. Fica quase difícil perceber as flores (embora elas estejam exuberantes) e o verde dos pinheiros naturais pois tudo parece "afogado" pelos enfeites natalinos.

É claro que, num cenário como esse, os restaurantes são disputadíssimos. Muito melhor será, então, o almoço feito em casa, preparado com graça e cuidado.

Nossa escolha foi salmão com molho de amêndoas e maracujá, acompanhado de ervilhas tortas e cogumelos. Beeem mais saudável do que as setenta e tantas ofertas dos "cafés coloniais" que costumam atrair os afoitos!

Uma receita sem mistérios: enquanto o salmão ia para o forno, já temperado com sal e pimenta, as amêndoas em lâminas eram tostadas numa grande frigideira (com um nadinha de azeite e todo o cuidado para que não queimassem). Em seguida, a polpa de maracujá congelada foi colocada na panela para aquecer, acrescentando um pouco de pimenta. Para que o molho tivesse boa consistência foi necessário juntar um pouquinho de maisena. Os cogumelos portobelo bem grandes foram fatiados e salteados no azeite bem como a ervilha torta. Tudo muito rapidamente para garantir que a ervilha ficasse crocante.  E estava pronta a refeição. Que tranquilidade!